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A morte do multiplayer local | Baú Analógico

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Lá em meados dos anos 90, quando a TV era um dos aparelhos mais valorizados e a principal fonte de informação e entretenimento das famílias, havia algumas regras para a utilização do videogame na minha casa, que se aplicavam à boa parte dos lares:

  1.  “Sem jogos violentos.” (Essa era a primeira a ser burlada);
  2.  “Não fique com o videogame ligado por muito tempo pra não estragar a televisão” (A TV era um aparelho caro naquela época e você morria de medo de que estragasse, mas esse argumento era na verdade a melhor desculpa que seus pais podiam dar para você não ficar jogando por muito tempo);
  3.  “Alugar fita? Só na sexta-feira se você se comprometer a fazer toda a lição antes da hora da janta.” (Sim amigos, o que conhecemos hoje como streaming nasceu naquela época como uma operação comercial que consistia em você ir a um lugar sagrado chamado Locadora, selecionar um título, torcer pra ele estar disponível e pagar pelo aluguel do objeto. As locações médias duravam 24horas e como as Locadoras geralmente fechavam no domingo, você devolveria a fita alugada apenas na segunda-feira, o que dava uma margem insana de tempo para a jogatina no final de semana)
  4.  “Deixa a sua irmã/primo-catarrento-de-três-anos/cachorro/vizinho/papagaio jogar um pouquinho.”
  5.  “Desliga esse videogame menino!” (Contra essa frase não existia argumento porque naquela época a vara da infância era a minha mãe e não havia brecha jurídica pra apelação)
  6.  “Computador é pra fazer trabalho de escola, não pra ficar jogando joguinhos.”

pizza-n64Diante deste cenário caótico, “jogar de dois” aparecia como maravilhosa alternativa aos lindos e desafiadores jogos de plataforma do Super Nintendo, Mega Drive e posteriormente Nintendo 64, Dreamcast e PS One. Era bastante comum você ouvir a frase “mas é de um ou de dois?” durante as exaustivas negociações para empréstimo e troca de jogos entre garotos ou como questionamento para o usualmente simpático atendente da Locadora.

Naquela época a “TV grande” que costumava ficar na sala possuía 21 polegadas. As TVs de 29″ não iriam se popularizar até pouco antes da Copa do Mundo em 2002, quando a demanda por tamanhos maiores cresceu a ponto de indústria e varejo combinarem esforços para facilitar pagamento e reduzir preços.

Vinte e uma polegadas.

Era tela de sobra para horas de diversão em split screen com os ótimos jogos da franquia Top Gear ou no co-op de Donkey Kong 2 e 3. Ah, os clássicos e saudosos beat’em-up arcades Streets of Rage, Teenage Mutant Ninja Turtles, Battletoads e tantos outros. Amizades se desfaziam quando alguém “apelava” (no sentido de usar apenas um golpe) em Street Fighter, Mortal Kombat, Killer Instinct. O Konami Code (cima-cima-baixo-baixo-trás-frente-trás-frente-B-A-start) servia para transformar o árbitro em cachorro durante uma partida de International Superstar Soccer, casa do mito dos gramados Allejo. As partidas em até 4 jogadores, parte da estratégia de promoção do Nintendo 64 trouxeram Mario Party e uma promessa de diversão com infinitas possibilidades.

Era o começo do fim para o multiplayer local.

Com a chegada e sucesso de títulos como Driver, GTA, Resident Evil, Tomb Raider, Medal of Honor, Metal Gear Solid e tantos outros, jogar videogame passou a ser uma atividade cada vez mais solitária, egoísta e menos multiplayer.

Não me entenda mal, jogos single player existiram desde os primórdios dos videogames. Mas é fato que a transformação no perfil clássico do videogame como hub social foi impactante a partir do início dos anos 2000.

A geração do Playstation 2 e do Gamecube, ao mesmo  tempo em que trouxe títulos memoráveis como Metroid Prime, novos Legend of Zelda, DMC e God of War, criou um abismo que separava bons jogos de bons multiplayers, limitando os mesmos aos segmentados jogos de esporte. Este abismo seria sanado apenas com o aumento da oferta de conexão em banda larga, lá em 2008/2009.

4.0.1

A internet trouxe aos consoles a retomada do multiplayer, de uma maneira que já acontecia no PC com os MMO’s, o multiplayer passou a ser global e títulos como COD e Battlefield passaram a dominar os rankings de venda e acessos. Jogar com os amigos tornou-se uma frequente e o mercado de headsets também se desenvolveu e a demanda dos jogadores . Por conta dessa facilidade de conexão, as desenvolvedoras resolveram optar por remover o multiplayer local e manter o framerate e gráficos classudos ao invés do “desconfortável” split screen.

Mas assumo que a aurora do multiplayer online trouxe possibilidades igualmente maravilhosas para alegria e entretenimento de gamers de todo planeta terra. Partidas com até 40 jogadores ou mais eram impensadas no auge da era dos cartuchos. O futuro será ainda mais brilhante com os equipamentos de Realidade Virtual, senhoras e senhores.

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Mas que essa cena vai deixar saudades eternas no coração de quem viveu aquela época, isso vai.

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Peace, DS <3


Sobre Diego Silveira

25 publicitário e apaixonado por games e música. Nostálgico, adora consoles retrô e tatuou um controle de Super Nintendo no braço para lembrar a infância. Consome doses cavalares de pizza e café, além de beber feito um viking. PSN: oPatto

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